Challenge Tour adia arranque da época em dois meses

Challenge Tour adia arranque da época em dois meses

Ricardo Melo Gouveia e Filipa Lima terão de optar entre três torneios na África do Sul e o Portugal Masters 

O Challenge Tour anunciou esta quarta-feira o adiamento do início da temporada em cerca de dois meses, afetando diretamente jogadores portugueses como Ricardo Melo Gouveia e Filipe Lima, que são membros da segunda divisão europeia, e Stephen Ferreira que tem direito a jogar alguns dos eventos deste circuito via Sunshine Tour.

«O European Challenge Tour e o Sunshine Tour anunciaram hoje em conjunto a confirmação do adiamento dos três torneios coorganizados na África do Sul», pode ler-se no comunicado assinado por ambas as partes.

Por enquanto, não está prevista qualquer medida semelhante para o European Tour, que tem tudo previsto para arrancar no dia 21 de janeiro, com o Abu Dhabi HSBC Championship, de 6,5 milhões de euros em prémios monetários. É um torneio da Série Rolex, ou seja, dos mais fortes do ano na primeira divisão europeia, e nenhum português deverá ter entrada. Ricardo Santos é o melhor colocado e está neste momento dez lugares fora da lista de inscritos.

O European Tour segue um plano de saúde e segurança extremamente rigoroso, com todos os jogadores, treinadores, caddies, jornalistas, funcionários do circuito, dos hotéis e dos campos, a serem testados antes de entrarem na referida “bolha sanitária”.

O Sunshine Tour e o Challenge Tour não têm poder económico para montarem uma “bolha” tão exigente. A evolução da pandemia em todo o Mundo tornava esta solução de adiamento dos circuitos bastante plausível.

Os dois circuitos deveriam retomar a sua atividade em fevereiro. Como a Tee Times Golf informou em Record no passado mês de dezembro, o Dimension Data Pro-Am abriria a temporada de 11 a 14 de fevereiro, com 334 mil euros em prémios monetários, seguindo-se o Cape Town Open de 18 a 21 de fevereiro e o Limpopo Championship de 25 a 28 de fevereiro, qualquer um deles com um “prize-money” de 167 mil euros.

Agora, com esta alteração de calendário, o Challenge Tour arrancará apenas de 22 a 25 de Abril com um torneio de 161 mil euros em prémios ainda por designar, mas seguramente na África do Sul. Seguem-se o Open da Cidade do Cabo, de 29 de abril a 2 de maio, com o mesmo “prize-money”, e o Dimension Data Pro-Am, de 6 a 9 de maio, com 323 mil euros em prémios.

«Sinceramente, já estava um pouco à espera, mas fico triste porque tinha o objetivo de preparar-me o melhor possível para essas provas e de voltar a competir… agora é esperar mais uns meses», disse Ricardo Melo Gouveia à Tee Times Golf, em exclusivo para Record.

O atleta olímpico português está em melhor situação do que em março e abril de 2020, porque agora sabe que as autoridades portuguesas permitem-lhe continuar a treinar neste novo período de confinamento, ao contrário do sucedido há quase um ano.

Aliás, essa é uma das razões que levaram-no a manter-se em Portugal em vez de regressar à sua residência oficial em Londres.

«Era para ter voltado logo em início de janeiro para Londres, mas, com o Reino Unido em confinamento total, decidi ficar por cá a treinar», explicou. O português de 29 anos tem estado bastante ativo, mostrando frequentemente das redes sociais algumas imagens dos seus treinos diários no Algarve.

Para mais, o profissional da Quinta do Lago tem a sua situação regularizada junto do estado britânico na qualidade de residente estrangeiro e o Brexit não irá prejudicá-lo: «Já fiz aquilo a que eles chamam de “settlement status”».

Em termos competitivos, as coisas não têm sido fáceis para Ricardo Melo Gouveia. Estava previsto iniciar a sua época no dia 17 de janeiro, no Palmares Open, de 10 mil euros em prémios, mas o Portugal Pro Golf Tour decidiu cancelar toda a sua temporada de 2020/21.

Agora, soube deste adiamento do Challenge Tour, pelo que, nos tempos mais próximos, só poderá jogar o torneio inaugural do novo Circuito da Federação Portuguesa de Golfe (FPG) que passará a aceitar profissionais, uma prova ainda prevista para 6 e 7 de fevereiro, no Montado Hotel & Golf Resort, em Palmela, com 7.500 euros em prémios.

Resta saber o que pensa a FPG fazer e o que ser-lhe-á possível fazer neste novo contexto de confinamento.

Miguel Franco de Sousa, presidente da FPG, tinha-nos dito há uma semana que no dia 14, ou seja, nesta quinta-feira, haveria uma reunião de várias federações desportivas nacionais para reivindicarem em bloco, junto do Governo, alguma atenção ao desporto.

Para já sabe-se que a FPG adiou o início da época que deveria ter arrancado no passado fim de semana, estando igualmente suspensas as provas previstas para esta semana.

Voltando à decisão do Challenge Tour, o britânico Jamie Hodges, diretor geral do circuito, frisou que «consultámos todas as partes envolvidas e a nossa prioridade foi a saúde e o bem-estar dos jogadores».

Quando o circuito regressar, Ricardo Melo Gouveia terá uma decisão difícil a tomar. Esta redefinição do calendário coloca o Open da Cidade do Cabo bem em cima do Portugal Masters do European Tour.

É certo que para o campeão nacional absoluto os principais objetivos são terminar 2021 numa classificação da Corrida para Maiorca do Challenge Tour que permita-lhe ascender ao European Tour, e ainda somar pontos para o ranking mundial e olímpico que levem-no a uma segunda qualificação consecutiva para o torneio olímpico.

O passado mostrou que é mais fácil somar esses pontos para o ranking mundial e para o ranking olímpico na segunda divisão europeia do que na primeira. Foi em grande parte assim, com muitos pontos somados no Challenge Tour, que ele apurou-se para o Rio de Janeiro em 2016.

No entanto, Ricardo Melo Gouveia tem uma relação especial com o Portugal Masters. É há seis anos seguidos o melhor jogador português no mais importante evento do golfe nacional, e nesses seis anos fez dois top-10 e dois top-30.

Jogar um torneio na África do Sul, regressar a Portugal, para voltar ao Sunshine Tour em três semanas seguidas é uma hipótese, mas fisicamente muito desgastante.

Em princípio, optar por jogar o Portugal Masters significará prescindir de três semanas do Challenge Tour na África do Sul. Poderá ser um custo demasiado elevado.

Um dilema idêntico deverá apresentar-se a Filipe Lima. Já Stephen Ferreira nunca foi contemplado com convites para o Portugal Masters, pelo que irá seguramente jogar os três torneios coorganizados pelo Challenge Tour e pelo Sunshine Tour.

Por Hugo Ribeiro / Tee Times Golf (teetimes.pt) para Record.

Lisboa, 13 de janeiro de 2021

Fotografia © Octávio Passos