Daniel Rodrigues “a viver um sonho” em Universidade norte-americana

Daniel Rodrigues “a viver um sonho” em Universidade norte-americana

O melhor amador português de 2019, com apenas 18 anos, inicia o segundo semestre no Texas e sente uma «mística inexplicável»

Daniel da Costa Rodrigues regressou no passado dia 14 aos Estados Unidos e já publicou nas redes sociais imagens dos primeiros treinos na Texas A&M, uma das universidades norte-americanas mais conceituadas no circuito universitário.

A iniciar o seu segundo semestre naquela universidade situada em College Station, no estado do Texas, “Dani”, como é conhecido desde menino em Portugal, não se arrepende minimamente da opção tomada em agosto do ano passado, de atravessar o Atlântico para viver, estudar e competir.

Numa mensagem mais pessoal e sentida, enviada à Tee Times Golf, em exclusivo para Record, Daniel da Costa Rodrigues afirma: “Estou a viver um sonho que muita gente sonha viver um dia. Sinto-me um sortudo por poder estar no sitio onde estou, com as pessoas com quem estou. Tornaram-se numa família e sinto que sou parte de um grupo e de algo que é muito maior do que eu. Toda a universidade tem uma mística que não consigo explicar por palavras. Só´ quem vai lá e vê, só quem representa a universidade é que consegue explicar o quão especial é”.

Depois de em 2019 ter protagonizado uma das melhores épocas de sempre de um golfista amador português, o jogador do Club de Golf de Miramar deu-se ao luxo de poder escolher a universidade que mais lhe convinha com a devida bolsa de estudo.

Vale a pena recordar que em 2019 Daniel da Costa Rodrigues conquistou o Campeonato Internacional Amador de Portugal, venceu o Campeonato Nacional Amador Audi e foi o melhor jogador da seleção amadora da Europa Continental que venceu o 52.º Troféu Jacques Léglise, em Inglaterra, ganhando todos os seus quatro encontros. Foi ainda 3.º no Orlando International Junior Amateur, 3.º no Campeonato Abierto de Madrid, 6.º no German Boys, 9.º no Boys Amateur. Em 2020, ainda antes de rumar aos Estados Unidos, foi 5.º no Spanish Amateur Copa S.M. El Rey.

Em 2019 e 2020 jogou também torneios profissionais, com destaque para a passagem do cut no Open de Portugal @ Morgado Golf Resort do Challenge Tour, em 2019; o 6.º lugar num torneio do Portugal Pro Golf Tour em Pinheiros Altos, em 2019; e, em 2020, foi 5.º classificado no Solverde Campeonato Nacional PGA, depois de ter liderado a prova no final do primeiro dia.

Este foi, aliás, o seu último torneio em Portugal antes de ir competir no US Amateur, o mais importante torneio mundial para amadores. Desde então permaneceu no Texas.

A sua opção recaiu nos “Aggies” da Texas A&M, integrados na primeira divisão da NCAA, um privilégio que nos últimos tempos só aconteceu com Pedro Figueiredo nos “Bruins” da UCLA (Califórnia) e de Nuno Henriques, Ricardo Melo Gouveia e Pedro Lencart nos “Knights” da UCF (Florida).

No site oficial dos “Aggies” pode ler-se a seguinte declaração do craque português de 18 anos: “Escolhi a Texas A&M porque mais nenhuma universidade ou estabelecimento de ensino provocou-me um impacto tão marcante. Tal como todas as pessoas envolvidas. Receberam-me como se já fosse um membro da equipa e isso tocou-me. Senti-me imediatamente em casa”.

Do lado da universidade americana nota-se igualmente o orgulho pela contratação do jovem português. Nos seus dados biográficos lê-se um extenso currículo desportivo, com saliência para os seguintes dados: «N.º1 português de sub-18, n.º1 amador português, n.º19 europeu de sub-18, n.º 36 europeu amador, n.º 79 no ranking mundial amador».

Não é fácil ser-se “freshman” (caloiro) e entrar logo na equipa principal de uma formação que milita na primeira divisão da NCAA e, de facto, “Dani” só conseguiu qualificar-se uma vez como titular, mas não saiu-se nada mal, embora a sua prestação não lhe tenha agradado, dado o perfecionismo que sempre o caracterizou.

Foi no Jerry Pate National Intercollegiate, disputado no Old Overton Country Club, nos arredores de Birmingham, no estado do Alabama, a 10 de novembro. A estreia de “Dani” num torneio da NCAA cifrou-se por um 54.º lugar, com 218 pancadas, 8 acima do Par, após voltas de 74, 72 e 72.

Anteriormente, tinham-se disputado em outubro o Vanderbilt Legends Collegiate e o Blessings Collegiate Invitational sem a presença do português na formação dos “Aggies”.

Durante a quadra natalícia, Daniel da Costa Rodrigues veio a Portugal para estar com a família e conversou com a Tee Times Golf em exclusivo para Record. Fez um balanço do primeiro semestre, explicou como é viver num ambiente completamente diferente ao que estava habituado, contou-nos como se vive a pandemia na sua universidade e continua a mostrar-se ambicioso para o futuro.

Daniel da Costa Rodrigues em declarações à Tee Times Golf em exclusivo para Record

RECORD (R) – O que tens feito desde O US Amateur em agosto? Creio que foste praticamente logo a seguir para a Texas A&M.

Daniel da Costa Rodrigues (DCR) – Fui direto do US Amateur para a universidade. Desde aí, têm sido meses de trabalho diário nos Estados Unidos

R – Podes dar-me uma ideia do que é essa universidade em termos gerais? Do impacto que teve em ti como estudante? E o que estás a estudar?

DCR – Estou a estudar Business Administration. A universidade é diferente de tudo o que eu tinha visto na minha vida. Em termos de dimensão, rigor, condições de treino e ajuda na performance, não só desportiva como também académica.

R – Dá-me ideia que a tua é uma das boas equipas da Division I da NCAA. É assim?

DCR – Sim a minha universidade está agora no 7.º da primeira divisão da NCAA.

R – Como tem sido a adaptação ao sistema norte-americano, quer de estudos, quer desportivo? Pergunto porque muitos jovens têm admitido que a adaptação não é fácil e às vezes a parte desportiva e competitiva até é mais complicada do que a dos estudos.

DCR – Desde que cheguei, criei amizades que tenho a certeza que vou levar para a vida. Digo isto porque foi esta empatia e lealdade dos meus colegas que fizeram com que a adaptação fosse mais fácil do que eu esperava. Ao princípio é um clima estranho, porque não temos aquela ajuda fácil que temos em Portugal, mas com o tempo fui-me habituando a tudo e hoje sinto-me integrado a cem por cento.

R – Nas notícias do site dos “Aggies” só vejo que houve três torneios nesta “fall season” e o teu nome aparece apenas no Jerry Pate National Intercollegiate. Dizia-se mesmo que foi aí que fizeste a tua estreia competitiva. Estas informações estão corretas?

DCR – Nesta “fall season” só houve esses três torneios, sim. Só joguei o último torneio, depois de ter conseguido esse lugar na qualificação.

R – Que tal te sentiste a jogar nessa estreia? Havia muito nervosismo por causa daquela vontade de mostrar que um “freshman” pode ajudar a equipa? Qual é o ambiente que se vive nesses torneios? Lembro-me de o Pablo Martin contar-me que sentiu muito mais pressão a jogar pela sua equipa universitária nos Estados Unidos do que quando ganhou o Open de Portugal do European Tour.

DCR – Sim, só joguei esse torneio. A estreia já era há muito tempo esperada por mim, porque sentia-me capaz de representar a universidade ao mais alto nível. Claro que não é fácil gerir, não só a pressão de ter de jogar para a equipa, mas também o facto de não saber muito bem onde é que o meu jogo competitivo estava, depois de três meses sem competir. O resultado não foi o melhor, muito devido ao facto de não ter encaixado bem o meu jogo naquele campo, mas fiquei feliz pela estreia.

R – Pelo que percebi, a equipa tem um novo head coach, Brian Kortan, que era o anterior treinador assistente, e têm também uma nova treinadora, Mary Witherell. Que tipo de treinadores são? Que tipo de trabalho fazem? Pergunto porque muitos europeus dizem-me que nas equipas americanas os treinadores são menos técnicos do que na Europa, investem mais nos aspetos da estratégia e do jogo mental.

DCR – Sim a equipa técnica mudou ligeiramente esta época. O treinador faz aquilo que lhe compete que é trabalhar 12 atletas para chegar ao final do ano e estar a discutir o título Nacional da NCAA. Quanto a pormenores acho que são irrelevantes. Posso adiantar que os treinadores são ambos muito meus amigos e são uns verdadeiros pais para mim. Devo-lhes muito.

R – Há medidas restritivas na Texas A&M por causa da pandemia como há nas universidades portugueses, com a obrigatoriedade do uso de máscara, distância física entre os alunos, entre alunos e professores, as cantinas servirem doses individuais que não podem ser partilhadas? A pandemia faz com que também seja mais difícil este ano de “freshman”?

DCR – A nível de segurança, está bem mais apertada do que em Portugal. Eu, pelo menos, tenho de andar sempre de máscara na rua. Só frequento restaurantes ao fim de semana e quando posso. Tenho de usar máscara o tempo todo, mesmo quando estou em trabalho físico no ginásio. Para além disso, ainda realizei múltiplos testes à COVID-19 (mais de uma dezena) que, felizmente, deram todos negativo.

R – Em geral, estás satisfeito com a tua opção?

DCR – Estou muito satisfeito com o meu percurso e volto aos Estados Unidos ainda com mais força, depois de umas semanas em casa, em Portugal.

R – Pensaste em jogar algum torneio em Portugal nessa fase de férias? Claro que agora a FPG decidiu cancelar todos os torneios, mas houve um torneio da PGA de Portugal no Algarve com alguns jogadores amadores.

DCR – Tinha pensado em jogar alguns, sim, mas depois de terem sido cancelados optei por não procurar torneios e ficar mais em regime de treino.

R – Tiveste pena de não ter podido jogar mais torneios da FPG no verão e outono de 2020, sobretudo quando chegaram as provas mais importantes, designadamente o Campeonato Nacional Absoluto Audi em que defendias o título e que em 2020 foi tão especial, por os profissionais também terem jogado? Foste seguindo esse torneio à distância com curiosidade ou nem por isso? Ou, sinceramente, depois do sucesso que tiveste em 2019, sentias que tinhas de ir para outro patamar?

DCR – Tentei sempre seguir mais ou menos todos os torneios, especialmente os mais importantes. Claro que queria ter participado nesses torneios, mas não foi possível, embora não trocasse nada do que estive a viver, porque tenho a certeza de que estou no lugar certo a fazer a coisa certa.

R – Poderás ter hipótese de jogar provas em Portugal ou por Portugal nas selecções da FPG em 2021, caso os calendários da EGA (Associação Europeia de Golfe) voltem em 2021? Ou agora será mais complicado?

DCR – Já falei com o meu treinador (na universidade) e claro que tudo dependerá da altura da época em que estiver, mas isso são coisas do futuro e não quero fazer especulações de torneios que possa vir ou não a jogar, até porque, em termos competitivos, o meu foco agora está lá (EUA) e não cá (Portugal). Mas se essas oportunidades chegarem, ficarei contente, claro.

R – Já te chamam também de “Dani” ou “Danny”? Ou tens outra alcunha na equipa?

DCR – Gosto que me chamem de “Dani”, mas o Brandon (Smith, já “Senior”), um dos meus colegas e amigo, meteu-me a alcunha de “Roddy” por causa do apelido Rodrigues.

Hugo Ribeiro / Tee Times Golf (teetimes.pt) para Record.

Lisboa, 19 de janeiro de 2021

Fotografia © Daniel da Costa Rodrigues